Transtorno do Processamento Sensorial – Quais sintomas e como tratar
O Transtorno do Processamento Sensorial (TPS), conhecido em inglês como Sensory Processing Disorder (SPD), descreve dificuldades do cérebro em organizar, filtrar e responder às informações que chegam pelos sentidos (visão, audição, tato, olfato, paladar, vestibular/equilíbrio, propriocepção/consciência corporal e interocepção/sinais internos como fome e sede). O resultado pode ser uma resposta “forte demais” (hiper-reatividade), “fraca demais” (hipo-reatividade) ou confusa (problemas de discriminação), afetando rotina, sono, alimentação, escola/trabalho e relações.
Importante: o Transtorno do Processamento Sensorial não aparece como diagnóstico formal no DSM‑5‑TR/ICD‑11. Mesmo assim, ele é amplamente utilizado na prática por terapeutas ocupacionais (TO) e outras equipes multiprofissionais por estar associado a dificuldades funcionais reais e por ser muito frequente em quadros como TEA (autismo), TDAH, ansiedade, prematuridade, histórico de trauma e dificuldades de aprendizagem. O foco clínico é a funcionalidade e a qualidade de vida, não um rótulo isolado.
Sintomas do Transtorno do Processamento Sensorial no dia a dia
Os sinais variam de pessoa para pessoa. Abaixo, um mapa prático do que observar.

| Domínio sensorial | Como pode aparecer | Exemplos práticos |
|---|---|---|
| Hiper-reatividade (hipersensível) | Incômodo intenso a sons, luz, toques, cheiros e texturas | Tampa os ouvidos no liquidificador; dor de cabeça com luz fluorescente; evita etiquetas/tecidos; náusea com odores |
| Hipo-reatividade (hipossensível) e busca sensorial | Parece “não sentir” estímulos; procura sensações fortes | Gosta de apertos fortes; pula/gira sem parar; bate objetos para sentir vibração |
| Discriminação sensorial | Dificuldade de diferenciar intensidade, localização ou tipo de estímulo | Derruba coisas; tropeça; confunde sons/letras parecidas; caligrafia instável |
| Modulação e autorregulação | Oscila entre agitação e apatia; derretimentos (meltdowns) em ambientes caóticos | Exaustão após sala barulhenta; “estouro” no fim do dia |
| Vestibular/propriocepção | Medo de movimento ou busca de movimento intenso | Enjoo de carro/elevador; postura “mole” na cadeira; precisa se mexer para focar |
| Interocepção | Dificuldade de perceber sinais internos | Só nota fome/banheiro quando já é urgente; confunde emoções com desconfortos físicos |
Sinais por faixa etária

| Idade | Red flags comuns |
|---|---|
| Bebês (0–2) | Choro inconsolável em trocas de roupa/banho; dificuldade para aceitar texturas; estremecer com sons cotidianos |
| Crianças (3–7) | Crises em barulho; seletividade alimentar por textura; evita parque/balanço ou busca movimento sem parar |
| Adolescentes | Fadiga após escola; dor de cabeça por luz/ruído; ansiedade em ambientes imprevisíveis |
| Adultos | Sobrecarga em escritórios abertos; dificuldade com tecido/etiquetas; exaustão sensorial ao fim do dia |
Ter alguns sinais não basta para concluir transtorno do processamento sensorial. O que importa é impacto funcional (ex.: vestir-se, estudar, trabalhar, conviver) e persistência dos quadros, sempre com avaliação profissional.
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É TPS, TEA, TDAH ou ansiedade? Entenda as diferenças
| Aspecto | TPS | TEA | TDAH | Ansiedade |
|---|---|---|---|---|
| Núcleo | Processamento/resposta aos estímulos | Comunicação social + interesses/repetições + sensorial | Atenção/impulsividade/hiperatividade | Preocupação, hipervigilância, sintomas físicos |
| Oscilações | Ligadas ao ambiente sensorial | Podem ser sensoriais e sociais | Constantes, pioram com exigência | Ligadas a gatilhos cognitivos |
| Tratamento-base | TO (Integração Sensorial) + adaptações | Intervenção comportamental/educacional + suporte sensorial | Estrategias comportamentais e, às vezes, medicação | Psicoterapia (TCC), técnicas de regulação, medicação se necessário |
Condições podem coexistir. O papel da avaliação é mapear o que dificulta e onde agir primeiro.
Como é a avaliação do Transtorno do Processamento Sensorial
- Quem procurar: Terapeuta Ocupacional (TO) com formação em Integração Sensorial de Ayres (ASI). Envolva pediatra/neuropediatra/psiquiatra infantil ou neurologista/psiquiatra (em adultos) para comorbidades.
- Ferramentas: entrevista clínica, observação funcional, inventários padronizados (ex.: Sensory Profile‑2, Sensory Processing Measure – SPM; quando disponível, EASI), além de triagens de audição e visão.
- Rede (quando indicado): fonoaudiologia (oral/linguagem), psicopedagogia (impacto escolar), fisioterapia (postura/coordenação), psicologia (regulação emocional).
O objetivo é construir um plano funcional centrado na pessoa/família, com metas claras (ex.: “tolerar camisa escolar por 4h sem crise”, “permanecer 30 min em sala com fones”).
Como tratar o Transtorno do Processamento Sensorial
Não existe “cura instantânea”. O foco é regular e organizar as respostas sensoriais para melhorar participação em atividades. Os pilares:
1) Terapia Ocupacional com Integração Sensorial (ASI)

- Intervenção estruturada em ambiente preparado (balanços, texturas, pranchas, compressão profunda) para treinar o cérebro a processar estímulos de forma mais eficiente.
- Trabalha autorregulação, planejamento motor e participação (vestir‑se, brincar/estudar, tolerar ambientes).
- Sessões semanais (geralmente 45–60 min), com reavaliações a cada 8–12 semanas.
2) “Dieta sensorial” personalizada (plano diário)
- Sequências curtas de atividades reguladoras distribuídas no dia: proprioceptivas (empurrar/puxar, compressões, massagem com rolinho), vestibulares (balanços controlados), táteis graduais e respiração.
- Organize rotinas previsíveis e transições avisadas (calendário visual, timers, cartões de escolha).
- Atenção: técnicas específicas (ex.: “escovação”), coletes/colchas pesadas e compressões precisam ser indicadas e ensinadas por profissional.
3) Adaptações de ambiente (casa, escola, trabalho)
- Som: fones com cancelamento de ruído (ANC); “cantinho calmo” para descompressão.
- Luz: iluminação indireta; filtro para fluorescente; cortina translúcida.
- Tato/roupa: etiquetas cortadas, tecidos tolerados, costuras planas, camadas.
- Layout: mesa afastada de portas/alto fluxo; reduzir visuais poluídos.
4) Intervenções específicas
- Alimentação seletiva: TO de alimentação/fono para dessensibilização graduada (cheiro‑toque‑beijo‑mordida), sem forçar; foco em ampliar repertório com respeito.
- Regulação emocional: psicologia (TCC/DBT infantil) para estratégias de enfrentamento, identificação de gatilhos e habilidades sociais.
- Postura/coordenação: fisioterapia motora quando há atrasos ou hipotonia.
5) Medicamentos
- Não há “remédio para transtorno do processamento sensorial”.
- Fármacos tratam comorbidades (TDAH, ansiedade, insônia) quando indicado pelo médico.
Plano prático para os próximos 30 dias
- Diário sensorial de 7 dias: anote situações que pioram/amenizam (local, som, luz, roupa, cheiro, fome/sono).
- Consulta com TO (ASI): defina 2–3 metas funcionais e uma “dieta sensorial” segura.
- Checklist de adaptações: fones ANC, iluminação mais suave, roupas toleradas, cantinho calmo.
- Rotina previsível: quadro visual, timers e avisos de transição (2–5 min antes).
- Revisão em 4–8 semanas: ajuste metas e atividades com base no que funcionou.
Dicas rápidas por situação
- Banho/vestir: aqueça o banheiro; toalhas macias; comece pela roupa “tolerada” e progrida.
- Escola: combine lugar na sala, pausas curtas programadas, material com textura preferida, comunicação entre família e equipe.
- Mercado/festa: leve fones, brinquedo de mão (fidget), tempo limite e rota de saída combinada.
- Escritório: cadeira ajustada, luz indireta, pausas sensoriais (3–5 min a cada 60–90 min), música neutra/ruído branco.
Quando buscar ajuda com urgência
- Autolesão, colapsos com risco físico ou comportamento perigoso para si/terceiros.
- Recusa alimentar com perda de peso ou sinais de desidratação.
- Desmaios/tonturas intensas, regressão marcante do desenvolvimento.
Procure um serviço de urgência (UPA/Hospital) e avise a equipe de saúde. Em crise emocional grave, acione o CVV 188 (24h) e a rede de apoio.
Perguntas Frequentes – FAQ – Transtorno do Processamento Sensorial
O Transtorno do Processamento Sensorial “passa” com o tempo?
Muitas pessoas melhoram muito com intervenção e adaptações. A sensibilidade pode permanecer, mas fica gerenciável com estratégias e rotinas.
Meu filho tem TPS e não é autista?
É possível. TPS é comum no TEA, mas também ocorre sem TEA. A avaliação clínica diferencia e mapeia prioridades.
Exposição resolve rápido?
Exposições devem ser graduais e seguras, dentro da “janela de tolerância”, para evitar aversão. Faça com orientação profissional.
Coletes/colchas pesadas ajudam?
Podem ajudar algumas pessoas e contextos, mas sempre com indicação, peso proporcional e tempo controlado por profissional.
Existe laudo de TPS?
Como não é diagnóstico formal DSM/ICD, laudos costumam descrever dificuldades funcionais e a necessidade de adaptações/intervenções, citando instrumentos aplicados e comorbidades.
Conclusão
O transtorno do processamento sensorial não é “frescura” nem “manha”. É uma diferença neurossensorial com impacto real no cotidiano — e com caminhos de cuidado bem definidos: Terapia Ocupacional em Integração Sensorial, plano diário de autorregulação, adaptações de ambiente e, quando necessário, suporte emocional e escolar. Com informação, equipe e consistência, é possível transformar sobrecarga em participação, segurança e bem‑estar.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação individualizada. Procure profissionais qualificados para diagnóstico e tratamento.
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